Recurso de glosa: como montar a justificativa e o XML TISS do recurso
O lote foi aceito, o protocolo saiu, e semanas depois chega o demonstrativo: parte do valor não foi paga. Ao lado de algumas guias, um código de quatro dígitos e uma descrição curta. Isso é a glosa, e o caminho para contestá-la é o recurso de glosa.
Este texto explica como o recurso funciona no padrão TISS, qual o jeito certo de recorrer em cada situação, como escrever uma justificativa que a operadora consegue analisar e o que precisa ir no XML do recurso, para as operadoras que o recebem por arquivo.
Uma coisa que ninguém pode te prometer: que o recurso vai ser aceito. Quem decide é a operadora, com base no seu contrato e nos documentos do atendimento. O que dá pra fazer do seu lado é entregar um recurso completo, bem justificado e no formato certo, para que ele seja analisado em vez de devolvido.
Glosa não é erro de arquivo
Vale separar duas coisas que costumam se misturar:
- Recusa por erro de estrutura acontece antes do processamento: o portal não aceita o XML porque falta um campo, uma versão está errada, um valor não bate com o padrão. Isso se conserta corrigindo o arquivo e reenviando. O artigo sobre erro de estrutura e o de críticas mais comuns tratam desse caso.
- Glosa acontece depois: o arquivo foi aceito, a conta foi analisada, e a operadora decidiu não pagar parte dela. Pode ser falta de autorização, valor acima do contratado, procedimento considerado duplicado, documento que faltou. Aqui não adianta reenviar a guia. Uma guia reenviada costuma voltar como "guia já cobrada". O caminho é o recurso.
Antes de recorrer: três perguntas
- A glosa está certa? Às vezes está. Se a autorização realmente não existia ou o procedimento foi cobrado duas vezes, o recurso só gasta tempo seu e da operadora. Recorra o que você consegue sustentar com documento.
- Qual é o prazo? O prazo para recorrer é definido no contrato com a operadora. Confira antes de montar qualquer coisa, porque recurso fora do prazo nem entra em análise.
- Por onde a operadora recebe o recurso? Muitas oferecem o recurso digitado no próprio portal, guia por guia. Outras aceitam, ou exigem, a mensagem TISS de recurso de glosa, que é um XML próprio, diferente do XML do lote. Pergunte qual é o caso da sua.
Recorrer o protocolo, a guia ou o item?
O padrão TISS tem três níveis de recurso, e escolher o nível certo evita retrabalho:
- Recurso do protocolo inteiro. Para quando a glosa foi aplicada ao lote todo, e não a guias específicas. Você informa um código de glosa e uma justificativa para o protocolo.
- Recurso da guia completa. Para quando a guia inteira foi glosada por um motivo que vale para ela toda, como a falta de autorização. Um código e uma justificativa por guia.
- Recurso item a item. Para quando só alguns procedimentos, materiais ou taxas da guia foram glosados. Para cada item você informa qual é (sequencial, data, procedimento), o código da glosa, o valor que está recursando e a justificativa daquele item.
Na dúvida, prefira o nível mais específico que a glosa permitir. Uma justificativa genérica para a guia inteira, quando só um item foi glosado, é mais difícil de aceitar do que uma justificativa precisa para o item.
Como escrever a justificativa
A justificativa é o coração do recurso, e é onde a maioria dos recursos se perde. Algumas regras práticas:
- Uma justificativa por glosa. Não copie o mesmo texto para todas as guias. Quem analisa lê item por item.
- Responda ao código, não ao prejuízo. Se a glosa diz "falta de autorização", a justificativa precisa falar da autorização, não do valor que você deixou de receber.
- Cite a prova. Número da senha ou da autorização, data em que foi concedida, número da guia de origem, cláusula ou tabela do contrato. O que puder ser conferido, informe.
- Seja curto e objetivo. A partir da versão 4.00.00 do TISS a justificativa tem até 500 caracteres (na 3.05.00 eram só 150). Cabe uma explicação completa, não uma carta.
- Anexe o que a operadora pedir, pelo canal que ela pedir. O XML leva texto, não documentos. Laudos, pedidos médicos e comprovantes seguem pelo meio que a operadora indicar.
Alguns exemplos de estrutura (adapte à sua situação real, e só use o que você consegue comprovar):
Falta de autorização: "Procedimento autorizado pela senha 123456, emitida em 03/09/2026, válida até 03/10/2026. Atendimento realizado em 10/09/2026, dentro da validade. Senha informada na guia de origem 000123."
Cobrança em duplicidade: "Não se trata de duplicidade: são duas sessões distintas, realizadas em 10/09/2026 e 17/09/2026, conforme a quantidade autorizada pela senha 123456 (10 sessões)."
Valor acima do contratado: "Valor cobrado conforme a tabela vigente no contrato, cláusula X, reajuste aplicado a partir de 01/2026. Valor unitário contratado: R$ 00,00."
O que vai no XML do recurso de glosa
Quando a operadora recebe o recurso por arquivo, ele segue a mensagem de recurso de glosa do padrão TISS. Pela estrutura da versão 4.03.00, o arquivo reúne:
Identificação do recurso
- Registro ANS e nome da operadora.
- Os seus dados de contratado (prestador).
- Um número de guia de recurso seu, com a mesma lógica da numeração das suas guias: único e sem repetir.
- O número do lote e o número do protocolo do envio original. Os dois aparecem no demonstrativo.
- O objeto do recurso: protocolo ou guia.
Se o recurso for do protocolo
- Código da glosa e justificativa.
Se o recurso for de guias (até 100 guias em um mesmo recurso)
- Número da guia de origem, e o número que a operadora atribuiu a ela e a senha, quando houver.
- E então, para cada guia, ou a guia completa (código da glosa + justificativa), ou os itens glosados: sequencial do item, data de realização, procedimento, código da glosa, valor recursado e justificativa.
Fechamento
- Valor total recursado, que precisa bater com a soma do que foi recursado.
- Data do recurso.
O código da glosa é o código de quatro dígitos que a própria operadora informou no demonstrativo. Use exatamente o código que veio lá. É ele que diz qual glosa você está contestando.
Organize as glosas numa planilha antes de recorrer
Mesmo que a sua operadora só aceite recurso digitado no portal, juntar tudo numa planilha antes economiza horas e evita esquecer glosa dentro do prazo. Uma linha por item glosado, com colunas como:
| Coluna | De onde vem |
|---|---|
| Protocolo e lote | Demonstrativo da operadora |
| Guia de origem e guia da operadora | Sua guia / demonstrativo |
| Senha | Autorização da guia |
| Sequencial, data e código do procedimento | Sua guia |
| Código da glosa | Demonstrativo |
| Valor glosado e valor recursado | Demonstrativo / sua decisão |
| Justificativa | Você |
| Prazo final | Contrato |
Com isso na mão, o recurso no portal vira cópia de campos, e o recurso por XML tem tudo o que o arquivo precisa.
E o conversor do tiss.cx, gera o recurso?
Ainda não. Hoje o conversor gera o XML do faturamento a partir da planilha, o lote de guias SP/SADT e de consulta, no padrão da ANS, nas versões 3.05.00 a 4.03.00. O XML de recurso de glosa é outra mensagem, e ele não gera.
Se você recorre glosas com frequência, já organiza isso numa planilha e a sua operadora aceita o recurso por XML, fale com a gente pelo WhatsApp da página inicial. É exatamente esse tipo de caso que nos diz se vale a pena construir essa funcionalidade.
Enquanto isso, o melhor recurso é o que não precisa ser feito: boa parte das devoluções começa num arquivo com campo faltando ou versão errada. O Conversor TISS confere os campos ao gerar o XML e aponta a aba, a linha e o campo que precisam de ajuste antes do envio. Dá pra começar com 20 guias grátis por mês.